Uma Circunvalação amiga de todos

Nov 26 2014

Uma Circunvalação amiga de todos

Ocasionalmente a Circunvalação vai voltando ao centro das notícias. Seja pela concordância entre os vários intervenientes quer pelo fim dos acordos, seja quando surge a possibilidade de apoios europeus, lá volta a Circunvalação a ser tema de conversa.

image2993

Traçado da Estrada da Circunvalação

Via que une quatro concelhos (Porto, Matosinhos, Maia e Gondomar), a Estrada da Circunvalação é um arco importante na articulação dos eixos rodoviários que compõem o Porto e concelhos limítrofes. A preocupação recente dos decisores, no entanto, não tem passado pela questão rodoviária per se, mas antes pelas outras funções da via (transportes públicos, ciclabilidade e pedonalidade), que vivem subjugadas aos ditames do automóvel privado. Este statu quo seria mais compreensível noutras vias situadas noutras áreas do território, mas numa via urbana com tanta densidade (tanto de usos como de utilização), esta situação não é admissível. O principal entrave é certamente o facto de a Circunvalação servir (quase sempre) como limite entre os quatro concelhos referidos, e ser, naturalmente, um projeto intermunicipal.

Começando pelos transportes públicos, esta é uma via muito utilizada por autocarros (só da STCP existem cerca de 14 autocarros a percorrer a Circunvalação, para além do 205, que a percorre a totalidade). No entanto, a via não está pensada nesse sentido, existindo apenas algumas paragens com via segregada. Faixas bus, nem vê-las (em frente ao Hospital de São João existe uma via utilizada por autocarros, para acesso ao Hospital e por ambulâncias). Durante muitos anos discutiu-se a introdução do Metro na Circunvalação, sem se perceber muito bem se funcionaria em toda a sua extensão (da Praça Cidade de S. Salvador ao Freixo), ou apenas parcialmente. Curiosamente, nenhum dos projetos que viram a luz do dia incluíram a Circunvalação como eixo para o Metro. Importava clarificar qual o papel dos transportes públicos na Circunvalação, seja como radial distribuidora de tráfego, seja numa utilização parcial, ou então apenas como via de atravessamento, ignorando-a.

Quanto aos peões, a situação é crítica. Imersa num meio urbano denso, percorrendo locais tão importantes para a população como a Asprela e o Hospital de São João, a Rotunda AEP, a Areosa ou o Parque da Cidade, e situando-se num dos países europeus com maior quota de deslocações pedonais na distribuição modal, é caricato perceber que grande parte da Circunvalação não tem passeios. Mais caricato ainda é perceber que nem é a falta de passeios que afasta os peões mas, primeiro que tudo, o perfil de trânsito da via. Quando muito intenso, assusta pelo nível de barulho e de poluição; em horas mais calmas, são as velocidades praticadas que a tornam pouco amiga dos peões. Na falta de passeios, a circulação pedonal é feita pelas bermas, normalmente transformadas em estacionamento. Os cruzamentos não são pensados para os peões, e os atravessamentos pedonais existem apenas nos cruzamentos. Se a distância entre cruzamentos é grande, o peão tem de se aventurar.

Quanto aos ciclistas, a Circunvalação até poderia ser considerada uma via preferencial, tanto na circulação casa-trabalho-casa como na de lazer. É asfaltada, tem um traçado regular e é, em grande parte, plana. No entanto, o que afasta os peões afasta também os ciclistas. Pelas velocidades praticadas, existe a necessidade duma via segregada. Por outro lado, as velocidades praticadas são impraticáveis em meio urbano (ainda para mais existindo uma vontade expressa de a tornar mais urbana), por isso não tem sentido planear a via ciclável contando com as velocidades atuais. É importante, ao avançar para a ciclabilidade da Circunvalação, que se acautele as idiossincrasias da bicicleta enquanto veículo urbano. O tipo de via a escolher tem de ter em conta, em contraciclo com a toda a construção de ciclovias nos últimos 20 anos, as viragens. É inconcebível que as ciclovias existam até aos cruzamentos, e que depois os ciclistas se amanhem, quer queiram seguir em frente quer queiram virar. É importante que, seja qual for a solução adotada (não-segregada, segregada, bidirecional, unidirecional, pelo eixo da via, encostada ao passeio), que o desenho reflita as melhores práticas da área, e que trabalhe em rede com as ciclovias existentes (Marginal, Prelada).

Quanto aos automóveis ligeiros e pesados, a Circunvalação é utilizada como via de ligação entre as radiais que levam ao centro do Porto. Com uma via preparada para os carros, com grandes rectas, curvas abertas, bom asfalto e com os cruzamentos principais desnivelados (ou com rotunda), apenas os semáforos (e algum trânsito) afastam automobilistas desta via. Encarando de frente a necessidade de retirar automóveis da estrada (transferindo-os para a pedonalidade, para as bicicletas e para os transportes públicos), é crucial tornar esta via menos “amiga dos automóveis” e mais “amiga de todos os outros”. Isso implica a redução da velocidade média, através de gincanas, semáforos de velocidade, redução da largura da via, redução do número de vias, eliminação de passagens sobrelevadas, correção de curvas (a lembrar curvas de autódromos), e por aí fora. Por outro lado, o estacionamento selvagem tem de desaparecer (o estacionamento na berma não é autorizado pelo Código da Estrada).

Analisando a Estrada por partes, percebe-se que, ao longo do tempo, os grandes cruzamentos foram incorporando rotundas e desnivelamentos, ficando os mais urbanos semáforos guardados para os cruzamentos com vias menores. A “praça da anémona” (Praça Cidade de S. Salvador) ganhou uma rotunda. Noutras situações surgiram rotundas com passagem desniveladas, seja por cima seja por baixo, como na “rotunda dos produtos estrela” (Rotunda AEP) e na Areosa (cruzamento da Circunvalação com a Avenida Fernão de Magalhães). A rotunda, como qualquer transeunte reconhece, não é amiga dos peões e dos ciclistas.

aep

Rotunda AEP

areosa

Areosa

Existem também nós (o próprio conceito de “nó” rodoviário num ambiente urbano é algo a evitar) em que a Circunvalação enquanto “rua” desaparece por completo, substituída por um ramal de ligação entre vias: Via Norte (N14), A3. No cruzamento com a A3, então, parece que a cidade acaba, logo após o nó. Um peão ou um ciclista que queira ir para o outro lado da A3 tem de seguir pela berma, cruzando viragens à direita que levam diretamente à autoestrada. No mínimo, assustador.

VIA NORTE

Cruzamento com a Via Norte

A3

Cruzamento com a A3

As passagens desniveladas (que muito agradam aos automobilistas) são ruinosas para a cidade. O conceito de levantar os carros antes do cruzamento para que possam sobrevoá-lo é genial do ponto de vista rodoviário mas terrível para quem está fora dum carro. Basicamente trata-se de construir viadutos dentro da cidade, muitas da vezes pertíssimo dos prédios, para desanuviar os cruzamentos existentes. Não é por acaso que o acesso ao NorteShopping ou o viaduto da Areosa (que começa muito antes e acaba muito depois do cruzamento com a Fernão de Magalhães) são dados como demolíveis há muito tempo. São obras de outras eras.

Por último, a placa central, um autêntico bosque urbano em linha (constituída nomeadamente por plátanos monumentais) tem de ser integrada no projeto que avançar. Não só a sua manutenção mas também o seu reforço, através da plantação de mais árvores, do seu prolongamento para outros troços, ou mesmo incluindo no eixo central passagens pedonais / ciclovias, criando zonas de estar.

O traçado das vias reflete as opções políticas da altura em que foram construídas, e se hoje em dia tanto se fala da Circunvalação como exageradamente rodoviarizada, pouco amiga dos peões e das bicicletas, como uma barreira, etc., então existe, de facto, um desajuste gigante entre as intenções e a via em si.

É pena que a Estrada da Circunvalação não seja mais como a canta o Sérgio Godinho. Ganhávamos todos.

P.S. Não comentei o troço de via entre a Areosa e o Freixo por não o conhecer bem. No entanto, é capaz de ser a área da Circunvalação que mais necessita de políticas urbanas, por ser o sítio onde mais parece uma estrada nacional / via rápida. Muitas das indicações que deixo para o resto da Circunvalação podem bem valer para este troço.

Leave a Reply

Your email address will not be published.