Porto – Lisboa pela Ryanair, que futuro para os serviços da CP?

Set 30 2014

Porto – Lisboa pela Ryanair, que futuro para os serviços da CP?

Em Fevereiro deste ano a companhia aérea irlandesa de baixo custo Ryanair anunciou, no Porto, a criação da sua segunda rota doméstica em Portugal: Porto – Lisboa. Rapidamente esta rota foi reforçada e assim, a partir de Outubro, será possível ir a Lisboa e voltar no mesmo dia a preços reduzidos. O mesmo acontecerá no sentido inverso.

Após este segundo anúncio foi declarado, por muita gente, o funeral dos serviços da CP entre Lisboa e o Porto. De facto, como poderá a CP concorrer com um avião que faz a ligação entre as duas cidades em menos de uma hora por apenas 15€?

Há que referir, em primeiro lugar, que o preço de 15 euros tem um asterisco. Se quiser viajar amanhã, garantidamente irá pagar bem mais do que 15 euros. Por outro lado, o serviço Alfa Pendular da CP cobra no máximo cerca de 30 euros, sendo que também oferece bilhetes mais baratos a quem adquirir os mesmos com alguma antecedência. Acresce ainda que nos comboios da CP pode levar bagagem de forma gratuita.

Ainda que a CP consiga também competir em termos de preços, a principal arma do comboio está na sua conveniência. Efectivamente, ao contrário do avião, é possível decidir a viagem e comprar os bilhetes em cima da hora de partida do comboio. Tudo isto sem procedimentos de segurança. Para além das paragens intermédias em Aveiro e Coimbra (válido para os comboios mais rápidos), o comboio tem ainda a particularidade de deixar o passageiro no coração de Lisboa e do Porto. Esta operação é repetida várias vezes ao dia.

Há que referir, no entanto, que por um lado o aeroporto de Lisboa está praticamente no centro da cidade e que por outro, contando com a drenagem de população dos centros para a periferia, a localização do aeroporto do Porto pode ser mais conveniente e acessível do que a estação de Campanhã para uma larga percentagem da população.

Resta ainda falar do tempo de viagem. Segundo o website da Ryanair uma viagem entre as duas principais cidades portuguesas demora 50 minutos. Eventualmente demorará menos uma vez que esta companhia prevê tempos de viagem superiores à realidade. Ainda assim, tomando os 50 minutos como certos, devemos acrescentar o tempo dos procedimentos de segurança, de embarque e de desembarque. Pelas nossas contas dá o mesmo tempo que o Alfa Pendular, com a diferença de que no comboio esse tempo é aproveitado para actividades mais relaxantes do que ser revistado ou voltar a colocar o cinto nas calças ou o portátil na mala (que tinha dado tanto trabalho a acomodar).

Como procede a Ryanair no resto da Europa? Olhando para o mapa de destinos desta companhia parece ser claro a existência de um padrão: não há voos entre as principais cidades de países com alguma dimensão geográfica e com boa rede ferroviária. Por exemplo, a Ryanair tem uma grande presença no Reino Unido, Alemanha, França e Espanha. No entanto, não há voos entre Madrid e Barcelona, de Paris apenas sai um voo para França (continental), a Alemanha simplesmente não tem voos domésticos. O Reino Unido, tal como a Espanha, só tem voos entre os extremos do país em que uma viagem de comboio será extremamente longa e cara. Posto isto, voos da Ryanair entre as duas principais cidades de um país acontecem na Grécia (entre Atenas e Salónica) e em Portugal.

Apesar da nossa rede ferroviária não ser o nosso maior motivo de orgulho, a verdade é que o eixo Porto – Lisboa é bastante razoável e tem sucesso comercial. A isto podemos acrescentar todas as vantagens do comboio acima enumeradas.

Assim, acredito que neste eixo, à semelhança do voo nado-morto Faro-Lisboa, a Ryanair irá seguir a tendência que segue no resto da Europa. Todavia, este cenário não será num futuro imediato. A Ryanair terá seguramente a capacidade de gerar novas viagens, isto é, de captar passageiros que doutra forma não fariam esta viagem. Mas estes novos passageiros, a prazo, irão perceber que existem melhores alternativas para este eixo.

Admito ainda outros futuros cenários, e não desejo de forma alguma insucesso comercial a nenhuma companhia de transportes, mas nenhum dos cenários que admito e que não escrevi aqui passa pelo aniquilamento do serviço entre Lisboa e Porto prestado pela CP.

3 Comments

  • Carlos de Sá 15/10/2014 at 13:18

    Num trajecto tão curto (300 km), o avião só é competitivo quando o serviço ferroviário é uma lástima.

    Aqui ao lado a Ryanair não aposta em voos entre Madrid e Barcelona porque há o AVE, um sucesso nos trajectos entre cidades de média e grande dimensão; o mesmo em França (TGV) ou na Alemanha (ICE).

    Depois venham de lá os velhos do restelo defender a inutilidade de uma nova via, para velocidade elevada, entre Porto e Lisboa (e Faro?)… Acresce que a linha do Norte está saturada, e que já ali se gastaram centenas de milhões em melhorias de escasso sucesso.

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    • João S 17/02/2015 at 13:01

      “Num trajecto tão curto (300 km), o avião só é competitivo quando o serviço ferroviário é uma lástima.”
      É o caso de Portugal. O alfa pendular demora 2h30, que para passageiros frequentes entre porto-lisboa, a redução do tempo de viagem é sempre MUITO bem-vindo. Costumo viajar na Ryannair entre porto-lisboa porque a única desvantagem é mesmo passar nos serviços de segurança, que não demora mais de 5 minutos no terminal 2 de lisboa. Depois é só entrar no avião e, como só levo mala na cabine, quando chego ao porto é só sair do avião e dirigir-me directamente para a saída do aeroporto. Feito as contas, desde a entrada do aeroporto de lisboa até a saída do aeroporto do porto, perde-se entre 1h10 a 1h30. Muito mais vantajoso que viajar no alfa pendular.

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