O lucro e os Transportes Públicos* - Parte II

Nov 03 2014

O lucro e os Transportes Públicos* – Parte II

*o termo “Transportes públicos” refere-se, neste artigo a transportes de passageiros, que podem pertencer, ou ser operados, por entidades públicas ou privadas.

Train Station

© Gfadel | Dreamstime Stock Photos

Na primeira parte deste artigo (ver aqui) abordamos a questão da gestão privada ou pública, e como esta tem mudado através dos tempos, apresentamos as principais razões para a falta de lucro, e mostramos como duas companhias de transportes públicos em Hong Kong e Tóquio conseguem ter lucros.

Mas devem os transportes públicos ter o lucro como objectivo?

Esta questão é bastante debatida, e tem defensores dos dois lados. Há a questão dos transportes públicos estarem divididos entre dois objectivos: o de aumentar as áreas de cobertura, versus o número de utilizadores. Há sempre casos de linhas que, por si só, dão lucro, como na CP o caso da ligação Porto-Lisboa. No entanto, a CP serve muitas outras zonas, em que o número de passageiros e o número de viagens não cobre os custos operacionais das linhas. Deveriam todas essas linhas “não lucrativas” ser eliminadas, em prol do lucro?

Os transportes públicos prestam vários serviços. Para as pessoas que não têm automóveis, ou que não têm condições para os utilizar por serem demasiado novos, ou velhos, ou terem deficiências motoras, para os que não têm possibilidades financeiras de comprar e manter automóveis particulares, os transportes públicos constituem a única alternativa. Os transportes públicos garantem que as pessoas se possam deslocar a diferentes zonas das cidades / do país, asseguram o acesso aos locais de trabalho, a zonas de comércio, a cuidados de saúde, ou a zonas culturais e de lazer.

Para além deste serviço social e económico, os transportes públicos prestam também um serviço ambiental, providenciando transporte com menos emissões de gases de efeitos de estufa per capita do que o uso de automóveis. Outro argumento a favor é o facto de diminuir o número de carros nas estradas, e por isso diminuir a necessidade de manutenção das estradas, contribuindo para uma poupança de recursos.

Como aumentar as receitas de transportes públicos (sem cortar nos serviços)?

Independentemente da questão do lucro dever, ou não, ser um objectivo,  é óbvio que a gestão não deve descurar a necessidade de obter receitas, e para isso às vezes é apenas preciso considerar diferentes opções em termos de percursos, e de frequências, por exemplo cobrindo áreas com maior número de habitantes, e com frequências suficientes para que os utilizadores tenham liberdade em termos de horários.

Relativamente à despesa das empresas, para além dos custos operacionais mais directos, os custos com os conselhos de administração é dos aspectos mais criticados pelo público em geral. Estes aspecto deverá ser examinado cuidadosamente, para assegurar que os custos com cada divisão dos recursos humanos são adequados e associados a profissionalismo, exigência e qualidade na organização.

A forma mais convencional de aumentar as receitas é aumentando o número de passageiros e de viagens efectuadas. Isto não parece ser tarefa fácil, como relatou o Público recentemente, mas pode ser feito de duas maneiras: por um lado tornando mais eficiente, prático e atractivo o uso de transportes públicos, e por outro lado desincentivando o uso de automóveis, especialmente nos centros das cidades. Este tipo de medidas deve ser tomado simultaneamente. Para promover o uso de transportes públicos deve-se:

– Reorganizar as  redes de transportes público, operadas por públicos e privados, de modo a aumentar a conectividade com outras linhas, mesmo que se tenha que alterar os percursos;

– Permitir o mesmo sistema de pagamento nas redes de transportes das áreas metropolitanas, incluindo operadores públicos e privados;

– Melhorar a visibilidade de informação sobre as linhas existentes, as ligações a linhas de outros operadores, os horários e os preços, estando isto visível em cada paragem.

– Utilizar parte da verba das câmaras para fazer marketing institucional ao uso dos transportes públicos;

– Aumentar as possibilidades de ligação entre linhas / modos diferentes de transporte;

– Aumentar a densidade populacional nas zonas próximas de paragens / estações de transportes públicos.

Para desincentivar o uso de automóveis nos centros das cidades:

– Criar mais zonas pedonais ou de acesso muito restrito a automóveis;

– Não aumentar o número de lugares de estacionamento;

– Limitar a velocidade dos automóveis em zonas urbanas, por exemplo alargando os passeios.

Pode-se pensar também em formas alternativas de receitas, seja com base em negócios imobiliários como nos exemplos das cidades asiáticas; ou de transposição de receitas fiscais como no caso de Londres em que a taxa de congestionamento cobrada a cada veículo particular não residente que entre no centro Londres reverte para a autoridade metropolitana dos transportes de Londres. Talvez fosse interessante juntar parte dos impostos automóveis para financiar transportes públicos e infraestruturas para bicicletas. Por exemplo, vias e estacionamento para bicicletas que façam a ligação aos terminais de transportes públicos em zonas mais periféricas.

Conclusão

O lucro, ou a falta dele, nos transportes públicos, sejam eles operados por públicos ou privados, é uma questão que tem suscitado muitos debates pelo mundo fora. Independentemente da gestão ser pública ou privada é costume existirem subsídios públicos. Os subsídios são legitimados pelos serviços sociais e ambientais providenciados pelos transportes, que contribuem para uma maior igualdade de oportunidades no acesso à cidade, aos locais de trabalho, de saúde, de comércio e de lazer e, em termos ambientais, menores emissões per capita comparado com os automóveis, e diminuem o nível de congestionamento.

As poucas empresas lucrativas de transportes públicos situam-se em cidades onde, por razões históricas e de planeamento, há uma elevada densidade populacional, e onde o uso do carro nunca se chegou a disseminar (como nos EUA e na Europa). Uma das empresas aposta também em modos diferentes de transporte para aumentar a possibilidade de ligação das áreas residenciais às estações de comboio. Este tipo de estratégias faz com que as viagens pagas pelos passageiros sejam bem mais do que o suficiente para cobrir os custos operacionais. Para além disso, ambas as empresas são privadas, o que lhes permite também uma diversidade de negócios, tal como o imobiliário nas zonas das estações, ou as rendas pagas pelos centros comerciais, que podem contribuir para investimentos (despesas de capital) de expansão e actualização das redes de transportes.

Para aumentar as receitas dos transportes públicos, o mais importante será desenvolver estratégias que atraiam mais pessoas para os transportes públicos, melhorando, expandindo, e interconectando as diferentes redes com as redes das periferias, apostando na informação, e simultaneamente desincentivando o uso do automóvel. Para alargar a base de receitas poderia ser interessante explorar possibilidades como a transferência do imposto automóvel, ou das multas municipais, para os orçamentos dos transportes públicos.

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