O Andante – Curso rápido de introdução

Nov 28 2013

O Andante – Curso rápido de introdução

5 – Truques e tricas – Andante Gold

Hoje fechamos a série sobre o Andante, o sistema de bilhética da Àrea Metropolitana do Porto. Nesta última publicação trataremos o Andante Gold e as suas particularidades.

  • Z1

Como referido no artigo anterior, o Andante não tem títulos Z1 na versão Azul. O mesmo acontece para a versão Gold (mensal), o que causa ainda mais dificuldades. Principalmente em eixos com grande densidade residencial e de emprego (p.e. entre a Casa da Música e Campanhã, zona C1, ou em todo o centro de Matosinhos, zona C3), existe uma grande quantidade de utilizadores com passe mensal que o utilizam apenas dentro duma zona. São, no entanto, obrigados a comprar uma zona extra, como se pode ver na seguinte imagem:

zonamento 2-Work (10)

Verde é origem, vermelho é destino

Este é um gasto que certamente podia ser evitado com a criação do passe intermodal Z1. Este passo seria também crucial para a eliminação total dos tarifários monomodais da STCP, que geraram forte contestação aquando do seu anúncio. Essa contestação nasceu da diferença entre os bilhetes e passes mais baratos, que ao passarem para o tarifário Andante sofreriam um aumento de preço.

  • Pagar multa com o passe pago

Os detentores de passe mensal estão sujeitos a outra contrariedade: se não validarem o seu passe ao entrarem no meio de transporte ou quando trocarem de veículo, estão sujeitos ao pagamento de multa. A justificação oficial para esta situação é a contabilização de utentes consoante o meio de transporte (para que depois exista uma distribuição de lucros pelos diferentes operadores consoante o número de utilizadores). Esta explicação pode ser razoável para os operadores, mas não é razoável obrigar um viajante frequente a pagar multa tendo pagado o passe do mês. Não atrai muita gente ao Transporte Público, isso é certo.

  • Zonas lineares e rígidas

Outras das contrariedades recorrentes para os detentores dos passes é a rigidez do sistema zonal no que toca aos passes. Como referido anteriormente, o sistema Andante distingue-se do sistema de coroas por ser a origem o centro do mapa tarifário. Para os bilhetes simples, é assim que acontece. Para os passes, a diferença é abismal em relação ao sistema de coroas. Ao contrário desse sistema, o detentor do passe Andante não tem direito a uma área onde pode circular livremente mas antes a um eixo, normalmente definido pelo meio de transporte mais utilizado:

zonamento 2-Work (11)

Exemplo de passe mensal

Quando é confrontado com a necessidade de se afastar desse eixo para fazer a sua deslocação diária, o utilizador pode ser confrontado com uma multa, apesar de manter a mesma origem e destino de sempre. Vejamos o exemplo dum utilizador que se desloca todos os dias do centro da Maia para a Trindade, no Porto, utilizando para esse efeito a Linha C do metro:

zonamento 3-Work (20)

Percurso diário com origem na Maia e destino na Trindade

Num dia de chuva forte, o utilizador vê-se obrigado a procurar um autocarro para a sua deslocação, visto a chuva em excesso ter interrompido a circulação do metro entre a Casa da Música e a Trindade. Escolheu o 600, da STCP, que passa no centro da Maia e na Trindade. Se a origem e o destino são os mesmos, e se o mês está pago, não devia haver problema, certo?

zonamento 3-Work (21)

Hipótese alternativa, em dia de interrupção no metro

Errado. O percurso do metro passa nas zonas C5 + C2 + C1, enquanto que o autocarro faz o seguinte percurso: C5 + C6 + C1. Ou seja, se um revisor entrar no autocarro na Rua do Amial, entre a VCI e a Circunvalação, o utilizador pode ser multado, por não ter comprado a zona C6. Uma injustiça, dirão muitos. Principalmente em dias excecionais (greve, linhas fechadas), em que os utilizadores procuram alternativas aos percursos quotidianos.

Esta rigidez do uso dos passes em situações excecionais reflete-se também nas utilizações de fim de semana. É natural que os utilizadores frequentes queiram também usufruir de Transportes Públicos mesmo nos dias em que não trabalham.

Assim sendo, tomemos como exemplo um utilizador que mora e trabalha no centro do Porto, tendo para esse efeito comprado um passe Z2 (C1+C2). No domingo decide ir até à Póvoa de Varzim, para um dia bem passado na praia. Caso esse fosse um mês em que não tivesse comprado o passe, seria simples: comprava um título Z6 por 2,7 euros. Mas sendo este um mês com o passe comprado, o utilizador percebe que precisa apenas de pagar parte do percurso, pois a outra parte já está coberta pelo passe. Assim sendo, e sabendo que o seu bilhete é válido até à Fonte do Cuco (uma estação para além do fim da zona C2, coberta pelo passe), compra um título Z4, o necessário para viajar entre Fonte do Cuco e a Póvoa (o bilhete que ele usa para carregar o título é outra estória – pode comprar um Andante novo, por 50 cêntimos, pode carregar um bilhete vazio adquirido anteriormente, ou pode fazer clickz sobre um bilhete com outras viagens, ou mesmo fazer clickz sobre o passe). Entra na estação de Francos num veículo com destino à Póvoa de Varzim, sabendo que, chegando à Fonte do Cuco, tem de sair em passo de corrida, validar e voltar ao metro. Ao chegar à estação da Fonte do Cuco apercebe-se que o veículo não para lá, por ser um veículo expresso, que salta estações. Assim sendo, tem de esperar até chegar à estação de Pedras Rubras (o sítio onde o metro para de novo) para validar o título, sabendo que entre esta e a Fonte do Cuco viajou ilegalmente.

Ao comprar o título extra para viajar entre a Fonte do Cuco e a Póvoa, o utilizador não sabe bem se deve comprar um Z4 ou um Z5. Porque se o veículo seguinte for um expresso, o utilizador deve sair do veículo na Senhora da Hora para validar (deve comprar um Z5). Se o veículo parar em todas, deve comprar um Z4, saindo na Fonte do Cuco para validar.

Este é apenas um exemplo da complicação que pode constituir uma viagem para fora das zonas compradas mensalmente. Caso a caso, era importante que a Autoridade Metropolitana de Transportes do Porto conseguisse desatar estes nós que ainda travam a perfeita integração de Rede Intermodal Andante.

  • Publicações anteriores

1 – O funcionamento do sistema 

2 – As zonas

3 – Do bilhete simples ao passe de mês

4 – Truques e tricas – Andante Azul

2 Comments

  • Carlos de Sá 07/01/2014 at 15:25

    O Andante é, provavelmente, o pior sistema tarifário da Europa: confuso, caro, obtuso. A desculpa foi ser essa uma maneira de atrair privados para o sistema – na verdade, uma má desculpa, porque se pôs o interesse de meia dúzia de operadores privados à frente do interesse geral. E é particularmente nocivo para os utentes, porque paga o mesmo a operadores com bom material circulante e a operadores que transportam pessoas em piores condições do que hoje se transporta gado.

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    • Nuno Gomes Lopes 09/01/2014 at 02:22

      Boa noite, Carlos. O sistema não é universal exatamente por ainda subsistirem operadores privados que ainda não aderiram (ou já aderiram apenas com algumas linhas). Se o Andante fosse assim tão desenhado para os privados, certamente já teriam todos aderido.

      Obrigado pelo comentário.

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